Uma cidade que
já viu isso antes.
Em maio de 2024 o Guaíba subiu mais do que em qualquer registro desde que se mede o seu nível. Mas Porto Alegre já tinha se afogado antes — em 1941, em 1967, em 2023. Este projeto reúne os dados públicos da catástrofe e do que veio antes dela, para responder a uma pergunta desconfortável: o que os números dizem sobre a próxima vez?
5,33 m
pico do Guaíba em 05/05/2024
+0,57 m
acima do recorde de 1941
478
municípios atingidos no RS
876 mil
pessoas com residência atingida
01 · Série histórica
Um século e meio de cheias.
A cota de inundação de Porto Alegre é 3,00 m. Toda barra deste gráfico está acima dela — são as vezes em que a cidade alagou. O que muda é a distância entre a linha vermelha e o topo da barra: em 2024 foram 2,33 metros de água acima do ponto em que a cidade já se considera inundada.
02 · Abril e maio de 2024
Treze dias.
Entre a primeira chuva forte e o balanço de 1,9 milhão de atingidos passaram-se treze dias. O recorde de 1941 — que resistira 83 anos — caiu no sexto.
Chuva forte e granizo atingem a bacia do rio Pardo. Nada ainda indica a dimensão do que viria.
O Inmet emite alerta vermelho para volume elevado de chuva em boa parte do estado.
O estado decreta calamidade. 10 mortes, 114 municípios afetados. A Defesa Civil alerta para risco de colapso da barragem da UHE 14 de Julho.
Total sobe para 29 óbitos. Primeiro alerta oficial de possível transbordamento do Guaíba.
O Guaíba atinge 4,77 m e supera a marca que resistia havia 83 anos. Metade do estado — 265 municípios — está afetada.
Mais de 400 mil sem energia, 1 milhão sem água, 186 municípios sem comunicação.
O Guaíba chega ao nível máximo do evento. 341 municípios atingidos, 840 mil pessoas afetadas, 78 óbitos confirmados.
O nível se mantém acima de 5,3 m — 2,33 m acima da cota de inundação. O Aeroporto Salgado Filho fecha; voltaria a operar só em outubro.
Mais de 500 mil pessoas sem água, incluindo 85% de Porto Alegre. Uma frente fria traz nova chuva.
1,9 milhão de pessoas atingidas em 441 municípios. 340 mil desabrigados, 71 mil em abrigos.
Nota de método
Afinal, quanto marcou o Guaíba?
Você vai encontrar três números diferentes para o mesmo pico, e todos estão “certos”. É o tipo de divergência que a maior parte das reportagens ignora — e que, para quem trabalha com dados, é a parte mais interessante da história.
5,33 m
Leitura registrada
Último valor efetivamente medido antes de a estação do Cais Mauá ser danificada pela própria enchente.
5,35 m
Número divulgado
Cota que circulou na imprensa e em boletins durante e logo após o evento — é a que a maioria das pessoas conhece.
5,37 m
Revisão do SGB
Reconstrução posterior por avaliação indireta, feita pelo Serviço Geológico do Brasil depois que a estação de emergência do Gasômetro entrou em operação.
Neste projeto usamos 5,33 m como valor de referência por ser a última leitura direta, e sinalizamos a revisão sempre que ela for relevante. A régua original ficou submersa: a enchente destruiu o instrumento que deveria medi-la.
03 · Mapa de impacto
Onde a água chegou.
Camada geográfica em construção. O plano é cruzar a mancha de inundação do Mapa Único do Plano Rio Grande com os limites de bairro de Porto Alegre e a malha de setores censitários do IBGE.
Mapa interativo — próxima etapa
Depende de tratar os shapefiles do MUP RS e reduzi-los a um GeoJSON leve o bastante para carregar no navegador sem travar. É a parte mais pesada do projeto e a que exige mais cuidado de simplificação de geometria.
04 · Quem foi atingido
A enchente não foi democrática.
O Ipea cruzou imagens de satélite, o Censo 2022 e o CadÚnico para estimar quem, exatamente, teve a casa atingida. O resultado separa duas coisas que costumam ser confundidas na cobertura jornalística.
876,2 mil
pessoas com residência diretamente atingida
Em 420,1 mil domicílios, distribuídos por 418 municípios em calamidade ou emergência — 8,8% da população do estado.
310,4 mil
já estavam em vulnerabilidade socioeconômica
São 138,8 mil famílias que a enchente encontrou já em situação de vulnerabilidade — 9,7% desse grupo no estado. Perderam a casa quem tinha menos margem para reconstruí-la.
16.126 km²
área de impacto mapeada
484
municípios na área de impacto (Ipea)
478
municípios atingidos (Defesa Civil)
2,4 mi
pessoas afetadas de algum modo
A diferença entre 484 e 478 não é erro: o Ipea conta os municípios tocados pela área de impacto estimada por satélite; a Defesa Civil conta os que registraram ocorrência. Duas perguntas diferentes, duas respostas corretas.
05 · O custo
O que não volta.
184
óbitos confirmados
25
desaparecidos
423 mil
desalojados
~18 mil
em abrigos no pico
Óbitos e desaparecidos conforme boletim especial da Defesa Civil do RS de abril de 2025 — quase um ano depois do evento, porque a contagem levou esse tempo para se estabilizar. Desalojados e abrigados referem-se a agosto de 2024.
Fontes de dados
Tudo aqui é dado público.
Fonte
O que fornece
Status
Status
Onde o projeto está.
Narrativa e estrutura de storytelling
Série histórica de cheias do Guaíba
Cronologia do evento de 2024
Consolidação dos números de impacto humano
Coleta da série telemétrica horária (ANA/SGB)
Tratamento dos shapefiles do MUP RS
Mapa interativo da mancha de inundação
Cruzamento com renda e vulnerabilidade por bairro
Camada de saúde pública — leptospirose pós-enchente
Versão em Power BI (Publish to Web)
“Entre 1941 e 2024 passaram-se 83 anos. Entre 2023 e 2024, um. A pergunta que os dados começam a fazer não é se vai acontecer de novo — é com que frequência.”